Sala de aula pode ser usada tanto para o debate quanto para a doutrinação
22/06/11 às 12:58 | Redação da revista Profissão Mestre, especial para o Bem Paraná
O nazismo seria possível nos dias de hoje? A partir desta pergunta, o professor Ron Jones resolveu fazer uma experiência prática com seus alunos. Para mostrar como é ter que seguir regras de um líder, instituiu a disciplina em sala de aula fazendo os alunos marcharem e sentarem em suas carteiras em posição ereta. Logo o movimento extrapolou a sala de aula e envolveu mais de 200 estudantes para surpresa do próprio docente que ficou empolgado com tamanho poder de persuasão. Rapidamente, a iniciativa começou a gerar consequências ruins próprias ao regime fascista, como o sentimento de superioridade e a intolerância entre os membros e os jovens fora do movimento. Percebendo a dimensão de sua ação, o professor colocou um ponto final na experiência lembrando Adolf Hitler e os efeitos negativos da restrição da liberdade. Essa história real aconteceu em 1967 em uma escola na Califórnia, nos Estados Unidos, da qual Jones foi demitido dois anos após o ocorrido, e foi retratada no filme A Onda.
Esse caso ilustra como o educador pode influenciar a vida e as ideias dos alunos. Afinal, quem não se lembra de algum professor que tenha direcionado alguns pontos de vista que hoje você defende como seus? Até onde a influência inevitável da ideologia do educador pode ir sem se transformar em doutrinação? Será que é possível ser imparcial em sala de aula?
Uma pesquisa da CNT/Sensus mostrou que, para 78% dos professores entrevistados, o papel mais importante da escola é “formar cidadãos”. Apenas 8% responderam que a missão principal da escola é “ensinar as matérias”. A metade desses mesmos educadores respondeu que o discurso dos professores em sala de aula é “politicamente engajado”, 30% disseram que é “às vezes engajado” e somente 20% dos professores afirmaram ser “neutro”. Foram ouvidas 3 mil pessoas, entre pais, alunos e professores de escolas públicas e particulares de 24 Estados brasileiros em 2008. Se essa pesquisa é um bom reflexo da realidade na educação brasileira, muitos professores podem estar fazendo muito mais do que ensinar. O problema é saber qual impacto terá essa influência na formação dos jovens.
É inegável o papel de referência que o professor, tal qual a família, exerce na vida das crianças. Para os jovens, isso geralmente acontece em maior ou menor grau conforme a identificação com o educador. A psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Carmem Silvia Cerri Ventura, que também atua na formação de professores, acredita que a influência do educador se dá na medida de seu engajamento em questões políticas e sociais e de sua visão expressa na maneira de trabalhar os conteúdos na escola. “Acho difícil que o professor seja imparcial, mas ele deve ser cuidadoso no modo de se manifestar, respeitando o contexto familiar do aluno. Se o professor é sério, comprometido com seu trabalho, se ele ‘enxergar’ seu aluno, dificilmente sua influência será negativa, porque certamente suas colocações terão embasamento teórico e científico adequados”, afirma a psicóloga.
A questão da imparcialidade em sala de aula é um debate antigo. O advogado e fundador do projeto Escola sem Partido, Miguel Nagib, defende que muitas vezes a afirmação de que não existe imparcialidade é usada como justificativa para a doutrinação. Ele admite que todo conhecimento é vulnerável à ideologia e que nesse caso os educadores deveriam adotar as precauções necessárias para reduzir distorções. “Ser imparcial pode ser impossível, mas perseguir o ideal da imparcialidade e da objetividade científica não só é perfeitamente possível, como é moralmente obrigatório para um professor”, enfatiza. Expor ou não as opiniões?
Se a imparcialidade é impossível e a doutrinação condenável, como o professor deve agir em sala de aula? Há quase um século o sociólogo alemão Max Weber já tratava da questão no texto A Ciência como Vocação. Weber via a sala de aula como um lugar em que os estudantes estão em desvantagem, condenados ao silêncio, sem possibilidade de crítica perante ao mestre. “É imperdoável a um professor valer-se dessa situação para buscar incutir em seus discípulos as suas próprias concepções políticas, em vez de lhes ser útil, como é de seu dever, através da transmissão de conhecimento e de experiência científica.” Weber afirmava que aqueles professores que quisessem transmitir suas ideologias aos jovens deveriam fazê-lo fora da escola, onde os alunos estivessem em pé de igualdade.
O professor de História e diretor da Escola Estadual Leonor Quadros, em São Paulo (SP), Ricardo Barros Sayeg, acredita que o professor deve expressar suas opiniões em sala de aula sem que isso interfira no conhecimento que está sendo abordado. “É importante que ele expresse sua opinião sobre um determinado tema para os alunos, mas deixe claro que aquela é apenas uma visão de mundo dentre diversas outras possíveis. Nesse sentido, é interessante quando o professor trabalha com discursos de diferentes filiações ideológicas na análise de um determinado tema”, afirma Sayeg. Nagib também admite que o professor revele seus pontos de vista, porém com ressalvas: “Jamais contestamos a liberdade do professor de expressar suas opiniões em sala de aula. Esta liberdade, contudo, não é absoluta. O professor não pode usá-la para ‘fazer a cabeça’ dos alunos. A liberdade de ensinar do professor termina onde começa a liberdade de aprender do estudante”, explica. O dilema é se o docente, ao expor suas opiniões, às vezes até sem ter essa intenção, manipula os alunos a pensarem como ele pela influência que exerce nos jovens. O caminho para evitar isso é contribuir para a formação do espírito crítico nos estudantes. O professor Josué Cândido da Silva, da Universidade Estadual Santa Cruz, na Bahia, doutor em Filosofia e mestre em Sociologia, com ênfase em Ética, ressalta a importância do educador ajudar os jovens a desenvolverem autonomia intelectual, apresentando sempre diferentes pontos de vista sobre um mesmo tema. “Além disso, deve mostrar quais os critérios de objetividade e rigor científico, para que possam discernir o que é uma teoria e o que é um mero achismo”, acrescenta.
A professora Carmem Ventura reforça a importância do incentivo ao debate, ao contato com opiniões diferentes, fundamentadas no estudo e na análise da realidade, para que o jovem tenha melhores condições de fazer suas escolhas. “A ‘doutrinação’ só pode ser evitada se houver uma visão crítica dos fatos, em que simplesmente o aluno não ‘engula’ o que lhe dizem sem ser estimulado para o questionamento”, resume. Apesar de possuir certa liberdade de expressão, o educador também não deve esquecer do papel de modelo que representa perante os alunos. Dentro da sala de aula, o professor é o representante das normas que regem a sociedade e não pode, por exemplo, emitir uma opinião que vá contra os direitos humanos. “Mesmo que o professor pense que as mulheres são naturalmente inferiores aos homens, ele nunca poderá dizê-lo em sala de aula, pois, na sala está cumprindo uma função educativa e, como tal, deve encarnar os valores universais. Muitos pensam que isso é restringir a liberdade do professor, mas nossa profissão assim o exige. Caso queira expressar livremente suas opiniões, então escolha um púlpito ou um palanque, mas não a sala de aula”, exemplifica Josué da Silva.
Filosofando Naturalmente as disciplinas mais subjetivas, como História, estão mais associadas à transmissão de ideologias, porém nenhuma área do conhecimento pode ser considerada neutra. Existe uma distância entre a interpretação do texto com base no rigor científico e a manipulação do conhecimento para a disseminação de certo posicionamento. “Evidentemente, quando o professor usa o conhecimento histórico com o objetivo de divulgar certas ideologias, certas posições políticas, ele não está fazendo seu papel adequadamente. Ele está utilizando o conhecimento histórico numa atitude panfletária”, afirma Ricardo Sayeg.
Depois de 40 anos, as disciplinas de Filosofia e Sociologia voltaram a ser obrigatórias para o ensino médio. Para opositores da medida, essas duas áreas do conhecimento são o caminho perfeito para a manipulação ideológica, sobretudo porque muitos professores, na tentativa de despertar a consciência crítica e a cidadania nos alunos, acabam incutindo suas próprias concepções na cabeça dos estudantes. Mas para Josué da Silva, o risco de doutrinação sempre existe, independentemente da disciplina. “Um professor de Matemática pode disseminar preconceitos através de piadas sexistas ou homofóbicas, sem sequer se dar conta de que está doutrinando os alunos”, afirma. Também existe o estereótipo de que a maioria dos docentes dessas áreas são de “esquerda” e que com a obrigatoriedade das disciplinas surge uma oportunidade para os doutrinadores disseminarem suas ideias “marxistas”. O professor Ricardo Sayeg confirma que existe influência da visão de “esquerda”, mas defende que o próprio marxismo abriu diálogo com outras escolas do pensamento e incorporou novas visões. “É importante salientar também que as ciências citadas são sociais. E a preocupação com as desigualdades sociais no Brasil foi tradicionalmente uma bandeira da esquerda e não da direita em nosso país”. Para evitar os riscos de doutrinação, Josué da Silva acredita que a melhor saída é a boa formação do docente e a clareza dos objetivos pedagógicos de cada disciplina. “Professores que tiveram má formação universitária estão mais predispostos a querer incutir suas crenças nos alunos. Nesse caso, o que temos visto é muito mais a tentativa de incutir crenças religiosas e doutrinárias do que políticas, e menos ainda de esquerda.”
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