Ricardo Barros Sayeg
A Líbia tem sido ultimamente manchete de vários jornais e revistas, devido a instabilidade que o país vive nos dias atuais. Esse país é historicamente um cruzamento das regiões do Maghreb e do Machrek, marcado por tradições tribais. Na verdade o país só passou para a história contemporânea no século XX devido ao grande interesse dos países ocidentais nas suas enormes reservas de petróleo.
O país se tornou independente em 1951, com a subida ao poder do rei Idriss Al-Senoussi. Desde 1969, entretanto, o país é dirigido pelo coronel Muamar Kadhafi, que, com mãos de ferro, controla a Líbia.
Trípoli é a capital desse país do norte da África. A cidade no passado foi um cruzamento de rotas comerciais, abrigo de piratas e mercadores. Noventa e três por cento do território líbio é formado por desertos. Sobram apenas sete por cento, onde se concentram os principais centros urbanos do país.
A população líbia é formada por 6,3 milhões de habitantes, sendo 1,5 milhão de imigrantes. A principal riqueza do país é o petróleo que é retirado do subsolo da região leste do território. Até a primeira metade do século XX, a Líbia vivia da agricultura, submetida aos caprichos do tempo, visto que não possuía tecnologia para sua produção. O país vivia da ajuda internacional. A descoberta das primeiras jazidas de petróleo se deu em 1959, pela Exxon norte-americana. Quando subiu ao poder uma das primeiras medidas de Kadhafi foi nacionalizar a produção do ouro negro. As reservas do país são avaliadas em 42 bilhões de barris e o petróleo representa 95% de suas exportações.
A Líbia sofreu um embargo em 2003 e o governo do país vem tomando, de lá para cá, uma série de medidas liberalizantes. Devido a essas medidas, em 2010 teve um crescimento de 10,3% e a previsão é que viria a crescer 6,2% em 2011, não fossem os atuais levantes que assolam a nação do norte da África.
Após o golpe militar de 1969 que retirou o rei do poder, Kadhafi implantou no país seu próprio sistema político. Trata-se da Terceira Teoria Universal, expressa no Livro Verde, que foi publicado nos anos 1970 e que acompanha o ditador até hoje em seus discursos. O sistema é apresentado como uma alternativa ao capitalismo e ao socialismo e possui certas características do Islamismo. Derivado em parte de práticas tribais, o modelo propõe uma espécie de democracia direta para a eleição de representantes, exceto para o principal líder que se mantém no poder desde o final dos anos 1960.
Essa não é a primeira vez que o coronel Kadhafi enfrenta oposição. Ele já viu líderes religiosos que se opunham a ele devido a sua forma de encarar o Islamismo, estudantes de Benghazi manifestando-se em 1976, monarquistas ressentidos com a queda do antigo regime e até líderes militares que desertaram de suas forças armadas. Nos anos 1980, seu regime apoiou grupos terroristas como o Setembro Negro, que assassinou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique e o grupo separatista basco ETA, acusado de centenas de mortes na Espanha.
O coronel líbio se viu envolvido no ataque terrorista a um vôo da PanAm na Escócia, que teria resultado em 270 mortos. Nos anos 1990 assumiu a responsabilidade pelo ataque ao vôo, mas negou-se a extraditar o terrorista Abdel Basset al Megrahi, acusado de colocar uma bomba no avião.
Em 2008 iniciou-se uma reaproximação entre os Estados Unidos e a Líbia que voltaram a ter embaixadores, fato que não ocorria desde 1973.
O futuro da Líbia atualmente é incerto, Kadhafi tenta se manter no poder a qualquer custo, atacando inclusive a população civil de seu país. O mundo ocidental se movimentou muito pouco até agora para retirar o ditador líbio do poder, em função principalmente das imensas reservas de petróleo do qual boa parte da Europa ocidental, principalmente a Itália, dependem.
*Ricardo Barros Sayeg é professor de História e diretor de escola. Formado em História e Pedagogia pela Universidade de São Paulo (USP) é também mestre em Educação pela mesma universidade.